Definições: disjunção significa disfunção?
Justine Kingsbury e Jonathan McKeown-GreenMuitas das pessoas que duvidam do seu carácter analítico concordam contudo com a afirmação de que uma solteirona é uma mulher em idade de casar que ainda não casou. É também provável que concordem que esta afirmação tem o ar de uma definição. Afinal, tem as seguintes quatro características...
História da filosofia e história das ideias
Roger ScrutonUma abordagem das obras de filósofos históricos sem a aquisição de alguma competência filosófica independente conduz a equívocos. Uma abordagem puramente “histórica” tanto representa mal a filosofia de Descartes ou Leibniz como as peças de Shakespeare ou a poesia de Dante. Compreender o pensamento destes filósofos é enfrentar os problemas que eles visavam, problemas que habitualmente ainda são objecto de investigação filosófica, tanto quanto no seu tempo. Parece quase uma condição prévia para entrar no pensamento dos filósofos tradicionais que não se encare as questões que discutiam como “fechadas”...
Uma nova maneira de explicar a explicação
David DeutschEstou certo que ao longo dos cento e tal mil anos de existência da nossa espécie, e até antes, os nossos antecessores olhavam para o céu nocturno e perguntavam-se o que são as estrelas. Perguntavam-se portanto como explicar o que viam em termos de coisas que não viam. Bom, a maior parte das pessoas só se perguntavam isto ocasionalmente — como acontece hoje — quando paravam momentaneamente de se preocupar com o que normalmente se preocupavam. Mas o que as preocupava normalmente também envolvia uma ânsia de conhecer.
Filosofia da música
Peter KivyDesde o autêntico renascimento da estética e da filosofia da arte na década de 1960, tem havido uma clara tendência para tratar as artes individuais na medida em que apresentam problemas filosóficos que lhes são peculiares. Isto não equivale a afirmar que não se tem desenvolvido também a filosofia da arte em geral. As teorias ambiciosas da arte, procurando abranger todas as belas artes em definições sinópticas, ocuparam algumas dos melhores espíritos filosóficos deste período e trouxeram à disciplina...
O que é a ciência?
George OrwellNo Tribune da semana passada havia uma carta interessante do Sr. J. Stewart Cook, na qual sugeria que a melhor maneira de evitar o perigo de uma “hierarquia científica” seria fazer todos os membros do grande público, tanto quanto possível, ter uma formação científica. Ao mesmo tempo, os cientistas deveriam sair do seu isolamento e ser encorajados a desempenhar um papel mais intenso na política e na administração.
Viver bem: a ética de Aristóteles
Christopher ShieldsOs seres humanos entregam-se a comportamentos com propósitos. Fazemos coisas com razões e agimos tendo fins em vista. Assim, caminhamos para a loja com a intenção de comprar leite. Se um amigo que encontramos na rua nos perguntar no caminho por que estamos a caminhar na direcção da loja, a resposta sensata e correcta é a verdadeira: “Para comprar leite.” Se o nosso amigo for divertido e começar a regalar-nos com piadas e histórias de modo tão entusiasmante que nos esquecemos de onde íamos e porquê, podemos ficar confundidos, esquecendo temporariamente o que estávamos a fazer...
Filosofia da música
Paul GriffithsA filosofia da música é o estudo acerca do que é a música e de como esta tem significado. Associadas a estes assuntos abrangentes e abstractos estão questões que têm a ver com a composição, a execução e a audição: O que é a beleza na música? Quais os efeitos da música em indivíduos, grupos e sociedades inteiras? Que relações há entre a música, a natureza do som e a natureza do cosmos? Será que a música é uma linguagem e, se o for, de que tipo são as suas mensagens e quem é a sua fonte? Quais as bases da avaliação de composições e execuções (isto é, da crítica)? Será que algumas tradições musicais são superiores a outras?
Anselmo e a Astúcia da Razão, de J. M. Costa Macedo
Helena CostaA obra Anselmo e a Astúcia da Razão é uma edição actualizada de um dos trabalhos que integravam as “Provas de aptidão científica e capacidade pedagógica” que J. M. Costa Macedo, antigo professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, defendeu em 1995 nesta mesma Universidade. Nela procura delinear com a maior exactidão possível a importância da autonomia da razão na obra de S. Anselmo. Partindo das obras Cur Deus Homo, Monologion e Proslogion, ...
Soberba epistémica, estatismo e legislação
Desidério MurchoNum ensaio acertadamente publicado em 24 de Dezembro de 1943, Orwell sublinha que todas as utopias e concepções de uma existência humana perfeita, terrenas ou não, falham miseravelmente. Contrastam com a vivacidade das distopias e narrativas que descrevem em pormenor uma existência infernal ou o próprio inferno. Orwell discute não apenas a literatura — Charles Dickens, H. G. Wells, Aldous Huxley, Jonathan Swift, Voltaire e Rabelais — mas também as tradições míticas e religiosas da Grécia antiga, do cristianismo e do islamismo...
Será que a metafísica da música é redundante?
Vítor GuerreiroHá quem ponha em causa a relevância da metafísica da música, tanto para a experiência que temos dela como para a compreensão da sua natureza. Quem argumenta que a metafísica da música é musicalmente irrelevante, se bem compreendo, defende que os problemas metafísicos sobre música são musicalmente irrelevantes por não serem problemas da música e sim da metafísica.
Ajude a Crítica
Desidério MurchoO aparecimento recente de publicidade de extremo mau gosto nas páginas desta revista levou à decisão radical temporária de retirar toda a publicidade. Caso o leitor não saiba, não é possível controlar que tipo de publicidade surge nas páginas da Crítica. Apela-se por isso à sua ajuda: faça um donativo ou uma subscrição voluntária da Crítica, para ajudar a manter esta revista. Obrigado!
Philosophy of Law, de Mark C. Murphy
Lucas Miotto LopesO direito é freqüentemente visto como um emaranhado de problemas descritos em pilhas de papéis que são conduzidos de uma maneira obscura por burocratas especializados. É associado também a essa disciplina a figura do sofista, aquele que utiliza a persuasão a fim de, a qualquer custo, “vencer” um debate — este seria o advogado. Ao contrário do que esse estereótipo sugere, o direito é uma disciplina que suscita inúmeros problemas filosóficos e por isso exige argumentos cogentes e justificações. Essa exigência é mostrada de forma vívida por Mark Murphy neste livro introdutório de filosofia do direito.
O fim da política
Desidério MurchoQuando a época glaciar estava a chegar ao fim, os Neandertais pensavam provavelmente que aqueles verões quentes europeus eram apenas uma excepção. Afinal, sempre os glaciares tinham sido presença constante na Europa. Não são Neandertais que hoje olham para as novidades que talvez venham a caracterizar o futuro, mas podem estar a cometer o mesmo erro de tomar o que é uma nova tendência por mera excepção.
Viver Para Quê?, de Desidério Murcho
Artur PolónioPoucas pessoas terão chegado à idade adulta sem, numa altura ou noutra, se terem interrogado sobre o sentido da vida. Será que a vida tem sentido? E, se o tem, qual é? Caberá a cada um dar sentido à sua própria vida, ou cabe-nos apenas descobri-lo? E se a vida não tem sentido? O que se segue daí? No entanto, o problema do sentido da vida, escreve Desidério Murcho (“Introdução”, pp. 17, 18), nem sempre é uma interrogação filosófica genuína. Perguntarmos se a vida tem sentido quando a vida parece correr-nos mal não é necessariamente levantar uma questão filosófica...
Ark, de Stephen Baxter
Desidério MurchoEm Flood assiste-se à extinção progressiva da civilização científica e tecnológica, à medida que os oceanos vão cobrindo os continentes. O livro termina com a imagem inesquecível do cume do Evereste a desaparecer sob as águas em 2052, perante a consternação dos velhos e a indiferença da nova geração de seres humanos que já nasceram nas jangadas, refúgios dos últimos sobreviventes. Em Ark, voltamos a 2041 para assistimos ao desenvolvimento de um projecto mais arrojado: encontrar um planeta habitável, construir uma nave suficientemente rápida para lá chegar em tempo útil, e suficientemente grande...
A lógica e o lugar crítico da razão
Aires AlmeidaSerá o estudo da lógica necessário ao ensino da filosofia no secundário? E será o ensino da filosofia no secundário necessário para formar bons cidadãos? Acredito que a resposta é, em ambos os casos, negativa. O que se segue daí? Segue-se que nem a filosofia nem a lógica devem ser ensinadas nas nossas escolas secundárias? De forma alguma. Defendo, pelo contrário, que uma concepção correcta do que deve ser o ensino da filosofia e do carácter instrumental da lógica para a filosofia aponta até para que o estudo de ambas seja reforçado. Tal concepção...
Como sei que a Terra é redonda?
George OrwellNum ou noutro lugar — penso que é no prefácio a Saint Joan — Bernard Shaw comenta que somos hoje mais crédulos e supersticiosos do que o éramos na Idade Média, e como exemplo da credulidade moderna cita a crença muito difundida de que a Terra é redonda. O homem médio, afirma Shaw, não consegue apresentar uma só razão para pensar que a Terra é redonda.
Trouxe-vos paz e prosperidade!
Julian BagginiO que quer do seu governo? Não pode pedir muito mais do que paz e prosperidade, ou pode? Bom, segundo o seu presidente, é precisamente isso o que a União Europeia deu aos seus estados membros. Três “vivas” à UE então? Mais devagar. É verdade que não houve guerras entre os estados membros da UE desde que foi fundada, embora tenha havido bastante disso nos séculos anteriores. Também é verdade que a Europa é hoje bastante rica, mais rica do que era quando a UE começou. Mas a afirmação de que a UE foi efectivamente a causa desta paz e prosperidade exige mais indícios do que a declaração destes dois factos.
Flood, de Stephen Baxter
Desidério MurchoEnquanto os cientistas rendidos ao politicamente correcto teimam em usar os seus modelos baseados na hipótese do aquecimento global, o nível do mar continua a crescer muito para lá das piores previsões. Uma mulher, contudo, desafia a ciência politicamente correcta e faz modelos que batem certo com a realidade, mas que são más notícias para toda a gente: o nível do mar vai subir muito para lá do que pior se esperava — porque resulta da libertação de reservas de água subterrâneas, muito abaixo da crosta terrestre. Sobre as suas causas últimas, contudo, ela não especula e também por isso não é ouvida: não está obviamente relacionado com a expressão politicamente mágica “aquecimento global.”
Consciência e inconsciente na filosofia continental
Luís M. AugustoO fenómeno que denominamos “consciência” parece estar directamente ligado ao cérebro. Pelo menos, tudo nos leva a pensar deste modo, pois não temos conhecimento de estados de consciência na ausência de actividade cerebral (morte cerebral) ou em certos estados cerebrais vegetativos persistentes...
Educação e igualdade: uma análise conceptual
T. W. MooreArgumenta-se frequentemente que a educação deveria ter como finalidade a construção de uma sociedade igualitária, ou por exemplo, que deveria existir “igualdade” na educação, ou ainda “igualdade de oportunidades”. (…) Uma enorme dificuldade na abordagem da igualdade enquanto teoria é a sua exasperante vagueza.
A teoria representacional da mente
Vítor PereiraA teoria representacional da mente pressupõe erroneamente que todos os estados mentais são intencionais. Mas há estados mentais, como dores e emoções, que claramente não o são. Se considerarmos a parte cognitiva da mente (estados mentais como crenças, desejos, intenções — as chamadas atitudes proposicionais), a teoria representacional da mente parece estar bem: esses estados são intencionais. A maior dificuldade...
